Bíblia Etíope: O Que Existe no Livro Sagrado Mais Antigo? – Você provavelmente tem uma Bíblia em casa. Se for protestante, ela tem 66 books. Se for católica, 73.
Mas e se eu te dissesse que existe uma versão com 81 livros, considerada por muitos historiadores como a mais antiga e completa do mundo? Estamos falando da Bíblia Etíope.
Essa versão não é apenas um livro diferente; é o coração da Igreja Ortodoxa Tewahedo da Etiópia, uma das formas de cristianismo mais antigas que existem, estabelecida muito antes de muitas igrejas europeias.
Enquanto o ocidente debatia quais textos entrariam no cânon, os etíopes já preservavam escritos que o resto do mundo decidiu deixar de lado.
Hoje, vamos abrir as páginas dessa relíquia histórica. Vamos ver por que ela é tão maior, o que dizem os livros “extras” (como o famoso Book of Enoch) e por que essa tradição permaneceu isolada por tanto tempo.
O que torna a Bíblia Etíope única?
A primeira coisa que chama a atenção é o tamanho. A estrutura da Bíblia Etíope difere drasticamente do que estamos acostumados no Brasil. A Igreja Tewahedo divide sua bíblia em dois cânones: o Cânon Estreito and Cânon Largo.
O Cânon Estreito contém 81 livros, mas a contagem varia dependendo de como eles agrupam os textos do Antigo Testamento. O que realmente importa aqui é que eles nunca descartaram livros que outros concílios religiosos consideraram “apócrifos” (livros com autoria duvidosa ou conteúdo polêmico para a época).
Outro ponto fascinante é a língua. Esses textos foram escritos em Ge’ez, uma antiga língua semítica da Etiópia que hoje é usada apenas na liturgia, similar ao uso do Latim pela Igreja Católica no passado.
A preservação desses manuscritos é um feito incrível. Os Evangelhos de Garima, por exemplo, são dois livros preservados em um monastério etíope que datam de algo entre os anos 330 e 650 d.C.
Para quem gosta de história, vale a pena conferir esta matéria da Os Evangelhos de Garima, que mostra como esses textos sobreviveram ao tempo.

Os Livros “Extras”: O Que Foi Deixado de Fora no Ocidente?
A grande curiosidade gira em torno dos livros que nós não temos nas Bíblias convencionais. Por que eles estão lá? O que eles dizem?
1. O Livro de Enoque (1 Enoque)
Este é o mais famoso. Enquanto a maioria das igrejas o rejeita, a Bíblia Etíope o trata como sagrado. O texto expande a história de Gênesis sobre os “anjos caídos” (os Vigilantes) que desceram à Terra, tiveram filhos com women humanas (gerando os Gigantes ou Nephilim) e ensinaram tecnologias proibidas à humanidade, como a metalurgia para armas e feitiçaria.
É um texto denso, místico e que muda completamente a visão sobre a origem do mal antes do Dilúvio.
2. O Livro dos Jubileus
Conhecido como “O Pequeno Gênesis”, este livro repassa a história do mundo desde a criação até Moisés, mas divide tudo em períodos de tempo chamados “Jubileus” (ciclos de 49 anos). Ele oferece detalhes que o Gênesis omite, como os nomes das esposas de Caim e Sete.
3. O Livro de Mecabeus Etíope
Diferente dos Mecabeus que encontramos na Bíblia Católica, a versão etíope (Meqabyan) conta uma história distinta, focada em um rei de Média e Moabe que persegue judeus fiéis. Não se trata da revolta dos Macabeus contra os gregos selêucidas, mas sim de uma narrativa teológica própria daquela região.
Tabela Comparativa: Bíblia Etíope vs. Bíblias Ocidentais
Para visualizar melhor a diferença colossal entre essas versões, preparei esta tabela rápida:
| Features | Bíblia Protestante | Bíblia Católica | Bíblia Ortodoxa Etíope |
|---|---|---|---|
| Total de Livros | 66 | 73 | 81 (Cânon Estreito) |
| Old Testament | 39 | 46 | 46 ou mais (depende da contagem) |
| New Testament | 27 | 27 | 35 (Inclui livros de ordem eclesiástica) |
| Book of Enoch | Não Incluído | Não Incluído | Canônico e Sagrado |
| Língua Original | Hebraico/Grego/Aramaico | Hebraico/Grego/Aramaico | Ge’ez |
| Acceptance | Global (Ocidente) | Global (Ocidente) | Etiópia e Eritreia |
Prós e Contras de Estudar a Bíblia Etíope
Se você está pensando em ler essa versão, é bom pesar alguns pontos. Não é uma leitura simples para quem está acostumado com a Almeida Revista e Corrigida.
Prós (Pontos Fortes)
- Contexto Histórico Rico: Você entende o que os primeiros cristãos e judeus do período do Segundo Templo liam e discutiam.
- Preenchimento de Lacunas: Histórias como a dos anjos caídos explicam lacunas narrativas do Gênesis que sempre deixam leitores confusos.
- Visão Espiritual Diferente: Oferece uma perspectiva do cristianismo que não passou pelo filtro do Império Romano ou da Reforma Protestante.
Contras (Desafios)
- Acesso Difícil: Encontrar uma boa tradução direta do Ge’ez para o português é tarefa árdua. Muitas versões são traduções de traduções (Ge’ez -> Inglês -> Português), o que pode perder o sentido original.
- Complexidade: Os livros extras, especialmente os de ordens eclesiásticas no Novo Testamento (como o Sinodos and Qalëmentos), são muito técnicos e focados em regras da igreja antiga.
- Choque Doutrinário: Para quem tem uma fé muito enraizada em dogmas tradicionais, ler sobre anjos ensinando a fazer maquiagem (como em Enoque) pode soar estranho ou herético.

A Conexão com a Arca da Aliança
Não dá para falar da Bíblia Etíope sem mencionar a Ark of the Covenant. A tradição da Igreja Tewahedo afirma categoricamente que a Arca original, construída por Moisés, não se perdeu. Ela estaria guardada na Igreja de Santa Maria de Sião, na cidade de Axum, Etiópia.
Segundo a lenda nacional, descrita no livro Kebra Nagast (A Glória dos Reis), a Rainha de Sabá visitou o Rei Salomão em Jerusalém e teve um filho com ele, Menelik I. Anos mais tarde, Menelik teria levado a Arca para a Etiópia, onde ela permanece protegida por um único monge guardião que nunca pode deixar o local.
Para entender mais sobre a estrutura e história dessa igreja fascinante, a Wikipedia tem um artigo detalhado que serve como um ótimo ponto de partida técnico.
Dicas de Leitura para Iniciantes
Quer começar? Minha sugestão é não tentar ler a Bíblia Etíope inteira de uma vez. Foque no Book of Enoch primeiro. Ele é o mais acessível e o que tem maior impacto na cultura pop e teológica atual. Depois, dê uma olhada em Jubileus para ver a versão alternativa da história de Moisés.
Lembre-se: ler esses textos não exige que você mude de religião. Encare como um arqueólogo descobrindo camadas mais profundas de uma história milenar.
Frequently Asked Questions
A validade teológica depende da denominação. Para a Igreja Etíope, é a Palavra de Deus absoluta. Para católicos e protestantes, os livros extras são considerados apócrifos ou pseudoepígrafos — úteis para estudo histórico, mas não para basear doutrinas de fé.
É muito difícil encontrar a versão completa (os 81 livros) traduzida fielmente para o português em uma única encadernação. Geralmente, você encontrará o “Livro de Enoque” vendido separadamente ou compilações de apócrifos. Tenha cuidado com traduções de baixa qualidade vendidas na internet.
Indiretamente, sim. O Novo Testamento contém citações que remetem ao Livro de Enoque. A carta de Judas (verses 14-15), por exemplo, cita uma profecia de Enoque quase palavra por palavra. Isso sugere que os apóstolos conheciam e respeitavam esses textos.
A Igreja Etíope ficou isolada geograficamente e politicamente dos grandes concílios de Roma e Constantinopla por séculos. Enquanto o resto da cristandade “podava” a Bíblia para combater heresias, os etíopes mantiveram a coleção antiga que receberam, preservando tudo com muito zelo.
O Kebra Nagast não faz parte da Bíblia (cânon), mas é um texto sagrado nacional da Etiópia. Ele conta a história da linhagem dos reis etíopes, ligando-os a Salomão e à Rainha de Sabá, e explica como a Arca da Aliança foi parar na África.
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